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Ruas da cidade cenográfica d’O Maior São João do Mundo guardam as memórias da história da população negra de Campina Grande

Redação 01 by Redação 01
1 de julho de 2026
in Campina Grande, São João
Ruas da cidade cenográfica d’O Maior São João do Mundo guardam as memórias da história da população negra de Campina Grande

©Codecom e Gabryele Martins / Arte Produções



A cidade cenográfica é uma das atrações d’O Maior São João do Mundo, reproduzindo pontos turísticos da Rainha da Borborema, como o Cassino Eldorado, o Telégrafo e a Catedral, que contam histórias da cidade. Mas é abaixo de um céu de bandeirinhas azuis e amarelas, entre os logradouros onde frequentadores do Parque do Povo se deliciam com a gastronomia nordestina, que estão retratadas as vias famosas que representam o passado afro-brasileiro de Campina Grande: Beco da 31, Beco da Pororoca e Beco Quebra Quilos.

Convidamos o historiador Igor Furtado, Mestre em História pela UFCG e especialista em História da África e Diáspora Atlântica, para uma conversa durante um passeio pelas ruas reproduzidas na cidade cenográfica d’O Maior São João do Mundo. Buscamos saber qual a representatividade histórica da população negra da cidade nesses territórios.

“Falar sobre a relação da cidade cenográfica, que por sinal, está belíssima, com as questões ético-raciais, é fazer um movimento que a gente na História faz bastante, que é reparar aquilo que o objeto de pesquisa nos diz e o que não está dito no objeto de pesquisa. Então, nesses espaços acaba sendo o mesmo movimento, de reparar quais são os lugares que tem a presença da população negra, quais não têm e como essa presença ocorre”.

De um modo geral, todos os ambientes da cidade cenográfica estão presentes na História Negra de Campina Grande, mas muito dessa relação foi propositalmente apagado, assim como as figuras atuantes nesses episódios e cenários, quando negros e pobres experimentam as consequências das políticas de higienismo e eugenia aplicadas durante o processo de modernização das cidades brasileiras, na primeira metade do Século XX, que expulsou essas pessoas dos centros urbanos para as periferias e demoliu construções para abrir espaço para um dito progresso.

“Então, pensar nessa modernização do Centro de Campina Grande, é pensar nesses processos de exclusão. Muitas das pessoas que moravam tradicionalmente ali, naquelas vias, naquelas casas mais humildes, foram expulsas para regiões e bairros mais periféricos, como Bodocongó, Zé Pinheiro e Malvinas. A dinâmica é sempre olhar por esse processo de exclusão que envolveu a modernização da cidade”.

Mesmo após o processo que criou as periferias, houveram espaços de resistência, onde a população negra foi agente ativa da história da Rainha da Borborema, apesar do apagamento, que são justamente os representados nos becos d’O Maior São João do Mundo.

Beco Quebra Quilos

Enquanto contemplamos a cenografia do Parque do Povo, Igor Furtado nos contou sobre a história que nomeia o beco, que faz referência à Revolta de Quebra Quilos, protagonizada em 1874 por João Vieira da Silva, ou João Cargas D’água, como era conhecido por causa do trabalho de carregador de água, um homem negro filho de escravizados, que foi apagado da história até recentemente.

“Quebra Quilos é uma rua histórica de Campina Grande, que homenageia uma das revoltas mais importantes que nós tivemos aqui na cidade. Liderada por João Cargas D’água, um homem negro, foi tecida, organizada e tocada principalmente por comerciantes, feirantes, pelas classes mais trabalhadoras populares da cidade, que se indignaram com a implementação do sistema francês de pesos e medidas, que diferia do que era utilizado”.

Durante a rebelião, os feirantes quebraram os pesos utilizados nas vendas e alguns foram jogados no Açude Velho. Como outras revoltas protagonizadas por pretos e pardos, foi taxada de forma preconceituosa pelas elites, mas recentemente, em 2014, João Cargas D’água foi homenageado com uma estátua localizada na praça Jornalista José Lopes de Andrade, Centro.

Beco da 31

Diferente de outros locais, onde a presença negra se restringia ao serviço desempenhado pelos trabalhadores, o Beco 31, que hoje é a Rua Monsenhor Sales, no Centro de Campina Grande, abrigava diversos estabelecimentos frequentados pela classe trabalhadora, em suma preta e parda, Igor destaca que ali, os mais pobres tinham acesso ao lazer e dividiam estes espaços de boêmia com intelectuais de classes mais abastadas.

“O Beco da 31 funciona como um contraponto a esse processo de modernização. Era um lugar boêmio, onde uma elite letrada e a classe trabalhadora popular se juntavam e acho que até a geografia da rua contribuiu um pouco para isso. Lá havia um comércio muito famoso, a Fruteira de Cristino Pimentel, que anos depois vai se tornar um bar, onde jornalistas, poetas e intelectuais se reuniam, mas que também abrigava trabalhadores operários da cidade. Alguns relatos de Cristino davam conta da presença de pessoas que iam discutir filosofia e política, enquanto os ‘profanos’ estavam apenas para beber e ouvir música.”

Beco da Pororoca

A Travessa Almirante Alexandrino, não vive mais a agitação da Era de Ouro de Campina Grande, mas durante muitos anos foi responsável por abrigar a vida noturna da classe trabalhadora da cidade. Hoje, a região é retratada em espaços turísticos da Rainha da Borborema e as construções do Beco foram tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP), mas no século passado sofreu fortemente os impactos do higienismo vestido de progresso que desejava apagar os pretos e pobres da história.

“O Beco da Pororoca era um espaço muito mais popular e que não contava tanto assim com essa presença dessa elite de jornalistas e poetas da época. Ele foi criado mais ou menos em 1907, numa vila operária, muito por conta do surgimento do trem, e principalmente entre os anos 20 e 30 vão ser abertos alguns bares e prostíbulos nele.

Igor conta que, por ser uma região habitada e frequentada por pessoas negras e pobres, havia um estigma que pairava sobre aquelas pessoas, que constantemente eram associadas à criminalidade, por causa do lugar onde nasceram.

“Ali, na década de 30, quando começou a ter esse crescimento desse discurso eugenista, o Beco da Pororoca foi alvo de muitos políticos que queriam tirar aquela população do Centro, porque acreditavam que era um lugar que poderia enfear a cidade, um lugar de transmissão de doenças. Alguns processos judiciais muito antigos, a gente vai ver que muitos dos homens que eram acusados por determinados crimes, uma forma de aumentar a suspeição sobre eles, era relacionando esses homens ao seu local de origem e muitos desses homens tinham origem no Beco da Pororoca”.

Quem hoje transita pelo Parque do Povo talvez não faça ideia das histórias que guardam os espaços da cidade cenográfica e a participação da população negra nesses lugares. Entre pedreiros, que ergueram cada prédio, feirantes rebeldes que lutaram contra a tirania, boêmios que só queriam se divertir e profissionais que mantinham espaços funcionando mesmo sem poder frequentá-los para além do trabalho, diversos anônimos construíram a história de Campina Grande e mesmo sendo apagados resistem através do tempo, sendo resgatados e celebrados pelo O Maior São João do Mundo, todos os anos.

Com informações de Retalhos Históricos de Campina Grande e Revista Impressões Rebeldes

Codecom e Gabryele Martins / Arte Produções

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