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MST chama atenção para necessidade de produção sustentável

Redação 01 by Redação 01
21 de novembro de 2023
in Brasil
MST chama atenção para necessidade de produção sustentável


Com informações da Agência Brasil

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) faz 40 anos em 2024 e de lá para cá registrou avanços e enfrentou desafios. Uma das constatações da organização de ativismo político e social neste período foi verificar que o modelo de produção atual de alimentos está diretamente vinculado à crise global do meio ambiente. A conclusão é de Maíra Pereira Santiago, integrante da direção estadual do MST em Minas Gerais que participou nesta terça-feira (21) do Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, evento vinculado ao Congresso Brasileiro de Agroecologia, que acontece nesta semana no Rio de Janeiro.

Rio de Janeiro (RJ), 21/11/2023 – Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, no Passeio Público, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, no Passeio Público, no centro do Rio de Janeiro – Tomaz Silva/Agência Brasil

Para o enfrentamento desta questão, Maíra enxerga a reforma agrária como importante ação para a democratização de terras e socialização de bens comuns e também para minimizar a crise ambiental. “De pandemias, de clima, de chuvas, de falta de alimento, com a fome, por exemplo. Esse é um avanço pra nós muito importante e entender essa crise ambiental e como a gente pode colocar a reforma agrária à disposição para conter tudo isso”, disse em entrevista à Agência Brasil.

A coordenadora participou nesta terça-feira (21) de uma roda de conversa do Barracão Contra Agrotóxicos e Transgênicos Tenda Rachel Karlson, no Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, no Parque do Passeio Público, centro do Rio de Janeiro.

O local é um dos oito barracões dos saberes montados no evento, que reúne cerca de 350 expositores e expositoras de povos indígenas, quilombolas e outras comunidades tradicionais, em 150 barracas. De hoje até quinta-feira das 8h às 18h,  serão vendidas peças de artesanato e produtos de alimentação saudável.

A participação da agricultura familiar dentro da produção agrícola do Brasil, segundo Maíra, apesar de ter registrado um crescimento ao longo da vida do MST, representou um desafio.

“Nos últimos sete, oito anos deixamos de acessar muitas políticas públicas que são direitos dos agricultores familiares, e aí fez com que o que a gente vinha conseguindo de avançar na produção de alimentos saudáveis e fazer com que esses alimentos sejam vinculados, de fato, às populações, retrocedesse. Retrocedeu tanto que hoje a gente tem 33 milhões de pessoas que não comem [no país] e outros milhões com insegurança alimentar”, pontuou.

Um avanço no período, de acordo com Maíra que também é uma das coordenadoras no país do Plano Nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, foi o aumento da conscientização de agricultores familiares na produção mais saudável.

“Na pandemia, a gente conseguiu, não só o MST, mas a agricultura familiar como um todo ter o que é crucial na existência humana que é a solidariedade. Diante de uma complexidade tão grande que a sociedade passava e a fome tão presente a gente conseguiu vincular territórios à produção de alimentos que estava sendo distribuído para comunidades urbanas periféricas das cidades. Com isso, a gente conseguiu a ampliação dessa nossa produção de alimentos saudáveis”, observou,

O Plano Nacional Plantar Árvores e Produzir Alimentos Saudáveis, lançado em 2020, tem a perspectiva de plantar 100 mil árvores até 2030 em todas as áreas de assentamento e acampamento em todo Brasil.

“Queremos ampliar isso para outros territórios com a sociedade, nas cidades, nos parques para o plantio de árvores. Para isso acontecer, trabalhamos estratégias diferentes de coletas de sementes e construção de viveiros, hoje temos mais de 300 viveiros no Brasil todo que produzem mudas”.

Indígenas

A preocupação com a demarcação das terras indígenas foi o foco de Júlio Garcia Karai Xiju da etnia guarani de uma aldeia de Angra dos Reis, na costa verde do Rio. O indígena, que participa da coordenação da comissão guarani para o Sul e Sudeste, defendeu durante uma palestra no Barracão dos Povos Indígenas que a demarcação preserva a cultura dos seus ancestrais e ainda garante a produção de alimentos tradicionais dos indígenas como o aipim e o milho crioulo, uma espécie com grãos avermelhados como ocorre no seu território de 2017 hectares, que foi demarcado em 1985.

Rio de Janeiro (RJ), 21/11/2023 – Peças produzidas por indígenas à venda no Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, no Passeio Público, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Peças produzidas por indígenas à venda no Festival de Arte e Cultura da Agroecologia – Tomaz Silva/Agência Brasil

“Hoje em dia, para garantir o território e implantar todas as atividades culturais que temos, a nossa vida é pela demarcação dos territórios. A partir daí, da demarcação de aldeias, vamos ter a roça, saúde, preservação ambiental, vamos ter educação. Tudo isso envolve o círculo de luta pela demarcação do nosso território das comunidades indígenas”, afirmou à reportagem da Agência Brasil.

Segundo o líder indígena, das oito aldeias existentes no estado do Rio de Janeiro, apenas três estão demarcadas e o restante está em processo de discussão para a demarcação. As etnias são guarani, pataxó e guarani-kaiowá.

Produção

Um dos expositores do evento, Francisco Asturiano, 72 anos,  é agricultor e tem uma propriedade em Itaboraí, na divisa com Cachoeiras de Macacu, na região metropolitana do Rio, e faz parte de associação de produtores orgânicos. Entre outros alimentos, Francisco produz berinjela, batata-doce e mandioca.

Rio de Janeiro (RJ), 21/11/2023 – O produtor de mel, Marcus André e o agricultor Francisco Asturiano no stand da dupla, com produtos da agricultura familiar, no Festival de Arte e Cultura da Agroecologia, no Passeio Público, no centro do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Marcus André e Francisco Asturiano no stand da dupla, com produtos da agricultura familiar – Tomaz Silva/Agência Brasil

“São plantações que se agregam uma à outra. Planto aipim, mas do lado planto milho que vai jogar nitrogênio para a planta do aipim. É consorciado. É toda uma dinâmica diferente. Não é a grande quantidade de produtos, mas é consciência de que a terra está sana e recebe aquilo que precisa para produzir da forma correta”, disse à Agência Brasil.

Para Mateus André, que divide a barraca com Francisco, o grande gargalo do pequeno produtor continua sendo o transporte. “Infelizmente não temos no Brasil uma forma de escoamento democrática. É distância, frete sempre tem esse empecilho todo. Eu faço entrega a domicílio e participo também de feiras patrocinadas pela Abio [Associação de Agricultores Biológicos do Estado do Rio de Janeiro] do Circuito Carioca de Feiras, onde tenho uns pontos e escoo um pouco desses produtos”, conta

Segundo o agricultor, participar da Feira é uma forma de dar mais visibilidade aos produtos de pequenos produtores.

“É importante que a sociedade de uma maneira geral reconheça o trabalho do pequeno agricultor porque somos nós, na verdade, que produzimos o alimento são e sem agrotóxicos, sem importações, utilizando aquilo que temos aqui. Não é só orgânico, mas a característica principal que é a sustentabilidade e o respeito pela terra”.

Marcos André, que produz mel a partir de abelhas nativas sem ferrão, está satisfeito de poder apresentar o seu produto na Feira que considera muito qualificado. De acordo com ele, essas abelhas têm origem no Brasil e ao longo dos anos ajudaram a polinizar florestas do país. Ele destacou ainda a importância desta abelha em áreas reflorestadas.

“As árvores não são grandes o suficiente e não têm oco para as abelhas nativas, então o meliponicultor, quando cultiva a abelha nativa ele está oferecendo um espaço para que exista esta abelha em áreas recém florestadas”, explica.

Marcos André conta que a produção na Fazenda São Marcos ainda é pequena, mas tem avançado, e espera em breve chegar a uma quantidade maior de mel produzido no local. “Estou trabalhando com três espécies e à medida que a gente for expandindo vai aumentando o número de espécies”, comentou, completando que o valor agregado no mel dessas abelhas é maior do que de a do tipo apis .

“A abelha jataí [um tipo de nativa], por exemplo, produz de meio a um litro de mel por ano, então elas têm um valor agregado maior e também para a saúde. Elas desenvolveram vários antibactericidas. O mel e o própolis delas são antibióticos naturais. Ela tem uma produção bem menor, mas a gente cobra um valor maior por todo benefício que traz para as pessoas e para o meio ambiente”, disse.

O produtor explicou que é chamado de apicultor quem produz a partir da abelha apis, que tem origem na Europa e n África.

Isabela Santos Gonçalves Costa, da Firmeza Hub, empresa que organizou a feira, disse que o papel do evento é trazer a diversidade dos produtores para se encontrar com os consumidores de uma forma mais próxima. “Além da feira voltada à venda de produtos populares e de alimentos a gente tem os barracões dos saberes, que são espaços acadêmicos, de fala e de compartilhamento”, completou, destacando a presença de alunos de escolas públicas que visitam a feira no Parque do Passeio

Além disso, a escolha do Parque do Passeio Público, no centro do Rio, local que já teve muita representação no passado e atualmente é pouco aproveitado por moradores e visitantes da cidade, foi intencional. “Estamos fazendo um processo de revitalização de espaços públicos por meio da agroecologia e de incidência cultural. Estamos ocupando o Parque do Passeio com pessoas do Brasil inteiro, de comunidades tradicionais, quilombolas e com uma produção negra, disse.


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